Álbuns / Editorial
Lançado em 2003, é um dos projetos mais importantes de Madlib como produtor e curador musical. Com acesso ao catálogo da lendária gravadora Blue Note, ele remixou e reinterpretou clássicos de artistas como Donald Byrd, Bobbi Humphrey, Ronnie Foster, Bobby Hutcherson, Horace Silver, Wayne Shorter, Herbie Hancock e outros. O álbum mistura jazz, hip-hop instrumental, loops sujos, bateria quebrada e a estética fragmentada típica de Madlib. Seu impacto está em mostrar que o produtor de rap também pode ser arquivista, músico, historiador e alquimista — tudo ao mesmo tempo, porque dormir é para os fracos.
Azul empoeirado: Madlib invadindo o templo da Blue Note
Shades of Blue: Madlib Invades Blue Note foi lançado em 24 de junho de 2003, com 16 faixas e cerca de 56 minutos, pelo selo Blue Note. O projeto é especial porque não é apenas um álbum “inspirado em jazz”: Madlib recebeu acesso ao universo da Blue Note para criar um trabalho de remix e reinterpretação em cima de um dos catálogos mais respeitados da história do jazz. A própria Blue Note descreve o projeto como uma oportunidade rara, com Madlib tendo liberdade para usar seus arquivos em um álbum lançado pela própria gravadora.
A ideia central do disco é quase uma invasão respeitosa: Madlib entra no templo da Blue Note, mexe nas fitas, corta trechos, suja as baterias, reorganiza grooves e devolve tudo com linguagem de hip-hop. A Stones Throw descreveu o álbum como um projeto que entrega o legado da Blue Note a um dos artistas mais únicos do hip-hop, destacando a capacidade de Madlib de absorver influências e reinterpretá-las em novas formas. Ou seja: ele não trata o jazz como peça de museu; ele tira o quadro da parede, coloca no sampler e fala “agora respira de outro jeito”.
Sonoramente, o álbum é uma mistura de jazz rap, hip-hop instrumental, downtempo, soul-jazz e experimentação. Madlib não tenta deixar tudo limpo ou “bonitinho”; ele preserva ruídos, cortes, repetições e texturas empoeiradas. Isso dá ao disco uma sensação de vinil encontrado em sebo, madrugada no estúdio e beat feito com café velho. A Pitchfork destacou que Madlib remixou clássicos de nomes como Gene Harris & The Three Sounds, Donald Byrd, Ronnie Foster e Bobby Hutcherson, transformando esse material em obras de hip-hop instrumental e downtempo.
A influência de Shades of Blue está em reforçar o papel do produtor como alguém que não apenas cria beats, mas também reorganiza memória musical. Antes dele, grupos como A Tribe Called Quest, Gang Starr e Us3 já tinham aproximado jazz e hip-hop por meio de samples, mas Madlib levou essa relação para outro campo: ele trabalhou dentro do próprio arquivo da Blue Note, com permissão oficial, criando uma ponte entre tradição e invenção. O resultado não parece homenagem comportada; parece conversa entre gerações, com o jazz sentado na poltrona e o hip-hop mexendo no toca-discos.
Os samples e fontes são parte fundamental da identidade do álbum. Slim’s Return se conecta a The Three Sounds / Gene Harris, Distant Land vem de Donald Byrd, Mystic Bounce parte de “Mystic Brew”, de Ronnie Foster, Stormy usa Reuben Wilson, Please Set Me at Ease vem de Bobbi Humphrey, Stepping Into Tomorrow também remonta a Donald Byrd, Montara dialoga com Bobby Hutcherson, Song for My Father com Horace Silver, Footprints com Wayne Shorter, e Peace / Dolphin Dance junta referências de Horace Silver e Herbie Hancock. A compilação Untinted: Sources for Madlib’s Shades of Blue reúne justamente essas fontes originais usadas por Madlib, funcionando quase como o mapa do tesouro do disco.
O impacto do álbum também vem do jeito como Madlib mistura sua própria mitologia musical ao projeto. Algumas faixas aparecem ligadas ao universo do Yesterdays New Quintet, projeto fictício/jazzístico criado por ele, com grupos e personagens inventados como se fossem músicos reais. A Pitchfork observou que parte do disco funciona como “novas interpretações” de clássicos da Blue Note por Yesterdays New Quintet e seus desdobramentos, mas tudo passa pela mente e pelas mãos de Madlib. É como se ele montasse uma banda inteira dentro da própria cabeça — o que é genial, e também levemente preocupante, mas no bom sentido.
No fim, Shades of Blue é um álbum essencial porque mostra Madlib como produtor, DJ, pesquisador, músico e contador de histórias sem precisar rimar uma palavra sequer. Ele transforma jazz clássico em linguagem beatmaker, respeitando as fontes sem ficar preso a elas. O disco não tenta substituir os originais da Blue Note; ele cria uma nova entrada para eles, principalmente para ouvintes vindos do hip-hop. É um álbum azul, esfumaçado, fragmentado e vivo — como se a história do jazz tivesse sido passada por uma MPC e saído do outro lado com mais poeira, mais grave e mais malícia.
"Em Shades of Blue, Madlib não apenas sampleia a Blue Note: ele conversa com seus fantasmas, corta suas memórias em loops e transforma jazz em hip-hop com cheiro de vinil antigo.