Álbuns / Editorial
Lançado em 2011, é o álbum colaborativo de Jay-Z e Kanye West como a dupla The Throne. O disco mistura luxo, ego, crítica racial, paranoia, espiritualidade, moda e poder em uma produção grandiosa, com participações de Frank Ocean, Beyoncé, The-Dream e Mr Hudson. Faixas como “No Church in the Wild”, “Otis”, “Lift Off”, “Gotta Have It”, “New Day” e “N****s in Paris” mostram os dois artistas no auge da autoconfiança, mas também cercados por tensão. O álbum teve grande impacto comercial e cultural, estreando no topo da Billboard 200 e ajudando a transformar o rap de luxo em uma estética dominante dos anos 2010.
Luxo, poder e paranoia: Jay-Z e Kanye West no topo do trono
Watch the Throne é um álbum que nasce do encontro entre dois artistas em posições quase mitológicas dentro do hip-hop. De um lado, Jay-Z, já consolidado como lenda, empresário e símbolo máximo de ascensão no rap. Do outro, Kanye West, vindo da fase grandiosa de My Beautiful Dark Twisted Fantasy, com uma visão musical cada vez mais maximalista, ambiciosa e teatral. Lançado em 8 de agosto de 2011, o disco saiu por Roc-A-Fella, Roc Nation e Def Jam, com produção liderada por Kanye e nomes como Mike Dean, Swizz Beatz, Hit-Boy, RZA, Q-Tip, The Neptunes, Pete Rock e outros.
O conceito do álbum gira em torno do “trono”, mas esse trono não representa apenas dinheiro ou status. Ele simboliza poder, legado, disputa, sobrevivência e o peso de vencer em um sistema que historicamente excluiu pessoas negras dos lugares de comando. Jay-Z e Kanye celebram mansões, relógios, carros, arte europeia, moda e viagens internacionais, mas por baixo dessa superfície brilhante existe uma tensão constante. Watch the Throne é ostentação, sim — mas é ostentação com cicatriz. É como chegar de terno caro no evento e ainda lembrar exatamente quem tentou barrar sua entrada.
O impacto do álbum está justamente nessa mistura entre luxo e crítica. Ele ajudou a consolidar uma estética de rap grandioso, caro, globalizado e visualmente sofisticado, em que o rapper não aparece apenas como artista, mas como marca, empresário, curador de arte e símbolo cultural. A Pitchfork observou que o disco é marcado por samples caros, participações de peso e produção grandiosa, funcionando melhor quando Jay-Z e Kanye abraçam a autocelebração e a química entre os dois.
As faixas principais mostram bem essa dualidade. “No Church in the Wild”, com Frank Ocean e The-Dream, abre o álbum com uma atmosfera sombria, falando de fé, poder, moralidade e caos. “Lift Off”, com Beyoncé, mira no épico, quase como uma tentativa de transformar o álbum em lançamento de foguete. “Otis” é mais cru e direto: Jay-Z e Kanye rimam sem refrão tradicional, sobre um sample de “Try a Little Tenderness”, de Otis Redding, criando uma faixa que soa como dois campeões se divertindo no aquecimento.
Os samples são parte central da força do disco. “No Church in the Wild” usa elementos de “Sunshine Help Me”, do Spooky Tooth, e “K-Scope”, de Phil Manzanera. “Gotta Have It” trabalha com vários recortes de James Brown, incluindo “My Thang”, “Don’t Tell a Lie About Me and I Won’t Tell the Truth on You” e “I’m a Greedy Man”. “New Day” sampleia “Feeling Good”, de Nina Simone, transformando a voz dela em uma base melancólica para Jay-Z e Kanye imaginarem conselhos aos filhos que ainda teriam.
A influência do álbum também passa por sua dimensão comercial e visual. Watch the Throne não foi apenas ouvido; foi performado como espetáculo. A turnê que acompanhou o disco se tornou uma das maiores da história do hip-hop, enquanto “N****s in Paris” virou um hino de estádio, repetido várias vezes nos shows e transformado em símbolo da energia exagerada do projeto. A faixa ainda venceu no Grammy, enquanto “No Church in the Wild” ganhou como colaboração rap/cantada, reforçando o alcance do álbum para além do debate crítico.
No fim, Watch the Throne é um disco sobre estar no topo e perceber que o topo também é instável. Jay-Z e Kanye constroem um álbum de riqueza, arrogância e vitória, mas também de medo, ancestralidade, fé e contradição. É luxuoso, exagerado, às vezes frio, mas sempre impactante. O álbum não pede desculpa por ser grandioso; ele entra de corrente, terno, sample caro e ego do tamanho de um prédio. E, gostando ou não, marcou uma era em que o rap deixou de apenas ocupar o centro da cultura pop — ele começou a decorar o palácio.
"Em Watch the Throne, Jay-Z e Kanye West transformam o luxo em linguagem política: cada beat soa como vitória, mas cada rima lembra o peso de sustentar a coroa.